sábado, janeiro 27, 2007

terra à vista


Ao dia de São Tito do anno da Graça de dois mil e sete, os homens acordaram-me com boas novas. Existia sargaço nas águas que mareávamos.
O nevoeiro era no entanto ainda muito intenso e mantinha-se assim desde que cruzáramos o trópico. Assim sendo, o contacto visual não era possível, mas não devíamos estar longe de terra firme.
Os sinais repetiram-se ao longo do dia.
Por volta da hora primeiras, foi possível, por entre o cerrado nevoeiro, estabelecer contacto visual. Um breve vislumbre, mas efectivamente viu-se algo para além do grande mar aonde nos mantínhamos perdidos há meses.
Por volta da hora terceira, tornou-se a repetir essa imagem. Os homens estavam entusiasmados, mas os homens são homens, simples homens, há tempo a mais afastados de terra, sozinhos na vastidão solitária do negro mar.
Para o final da tarde, quando já mergulha o carro de Apolo no território de Hades, as silhuetas de pássaros irromperam ruidosamente sobre o céu que nos cobria as cabeças.
Efectivamente, já não podiam haver réstia de dúvidas. Para lá de toda aquela parede de nevoeiro, tinha que haver algo mais.
Certamente terra. Terra firme. Mas será terra do Senhor ou terra do Demo?

sexta-feira, janeiro 26, 2007

como é que se esquece alguém que se ama

“Quando tu sentires uma grande raiva de estar preso a alguém e desejares a toda a hora, ver-te livre da pessoa e quanto mais fazes por ver-te livre dela, mais a ela te chegas, então gostas. Mas quando só sentes uma grande paixão e não pensas noutra coisa, estás convencido que gostas, mas não gostas…”

Jorge de Sena, do livro “ Sinais de fogo “

"Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já não está lá? As pessoas têm que morrer os sítios têm de acabar, as pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?

Devagar. É preciso esquecer devagar.
Se uma pessoa tenta esquecer de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixarias, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar.
A primeira parte da cura é aceitar que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos em tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor de cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na Alma.
A saudade é uma dor que só pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso primeiro aceitar, (…) esta mágoa, este moinho que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo.
É preciso aceitar o amor e a morte; a separação e a tristeza; a falta de lógica e a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados, se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa, nem remédio, nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos, mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se tudo na Alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte.
Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'



quinta-feira, janeiro 25, 2007

agora falando a sério...

agora falando a sério...




"A vida é uma coisa demasiado importante para falarmos sobre ela a sério.”
Oscar Wilde

domingo, janeiro 21, 2007

fumo

depois do comentário do dream brother no post anterior, não resisti a ir buscar mais esta antiguidade

Fumo, do meu cigarro
num cinzeiro
ali parado,
junto à garrafa
da cerveja morta
ali ao lado.
E uma borboleta azul
passeia no ar,
viciado,
pousando depois
num velho jornal
do mês passado.
E o fumo no ar
faz-me lembrar
um sonho cinzento,
com as janelas fechadas,
estações de comboios
e um trem barulhento,
que se mantêm parado,
prestes a partir
a qualquer momento,
sempre de fumo no ar
e vazio no olhar

demonstrando esquecimento
do passageiro na gare
virado para o mar
de fumo cinzento.


28091996

sábado, janeiro 20, 2007

doces murmúrios

revirando o baú de velharias, esta já tem mais de uma década.

A cidade não amanhece,
mantém-se e escura,
na tranquilidade matinal
da noite fria e pura.

O trânsito não começa,
a noite não termina,
os turnos não se rendem,
mantém-se a neblina.

As estrelas não se deitam,
o sol não desperta,
o povo não enfrenta
o ar da manhã aberta.

Os jornais não estão à venda,
a manhã não se levanta,
os barcos estão no cais,
o dia já não encanta.

Tudo se mantém escuro,
não tem sentido a hora,
e tu com doces murmúrios
pedes-me que não vá embor
a.

29091996

... e no entanto ela pula e gira.

ilusionista

Luz e sombras, fumo e espelhos.
Arte da ilusão.
O que se vê não é o que realmente parece.

É este o ofício de um ilusionista, simular ser o que parece. Criar magia, ilusão, fazer crer aos outros que realmente é possível, ainda que do lado de cá se saibam aonde estão os fios, os truques, as aldrabices, as mentiras…
É ser dissimulado, aldrabão, mentiroso e no entanto ser honesto, consigo próprio, com os seus propósitos, com os outros. Mentir, sabendo-se que se espera é uma mentira, mas aquela mentira em que queremos acreditar.
Vendedor de intrujices, sem no entanto ser intrujão. A única mentira de um ilusionista é não criar a ilusão. É falhar, mostrar as cartas, os espelhos, ser descuidado. É falhar perante os outros, mostrar que a ilusão é mentira, que não existe magia.

Mas afinal… será que o que parece, efectivamente o é? Ou será apenas uma ilusão, do maior dos ilusionistas?


Houdini ilusão ilusionismo

cassandra

Do alto do seu pódio de loucura, erguida pelo desdém dos homens, Cassandra deslumbra as tormentas que se aproximam, mas insistem teimosamente em não ouvirem as suas palavras.















Cassandra Guerra de Troia Troia Troianas

quarta-feira, janeiro 17, 2007

danos viscerais II

> taquicardia

Sou apenas um ser humano, igual a qualquer outro.
Com um simples coração igual a tantos outros, com dois ventrículos e duas aurículas.
Na realidade é um músculo, constituído por fibras musculares, que contraem e dilatam, que às vezes aumenta de tamanho e que noutras diminui, consoante a sua necessidade.
De vez em quando bate depressa.


Os médicos chamam-lhe taquicardia, os poetas chamam-lhe paixão.

danos viscerais I

> tripas & coração

Definitivamente estou apaixonado. Sinto-o no âmago do meu estômago. Sim, no meu estômago! Este estômago que tem um nó e sofre de amor.
E depois? Por acaso não pode o estômago sentir o que é o amor?
Não há quem ame com o coração? E não há quem faça das tripas coração? Então qual é a diferença se amo com o bucho, a figadeira ou os rins? Poderá ser assim tão diferente uma taquicardia de uma úlcera no estômago?
Eu sei o que sinto e sei o que é amor. É isto que sinto e me diz o meu estômago.

domingo, janeiro 14, 2007

mar de chamas

O jardim do paraíso está a arder, e do céu chove gasolina.

Uma mancha negra sobrevoa os céus.
Um pássaro. Um pássaro negro voa em círculos. Confuso. Aflito. Desnorteado.
Procura poiso. Terra firme.
No entanto, em seu redor é todo chamas… Até à linha do horizonte não vislumbra mais do que esse fogo que tudo consome e tudo destrói no seu caminho.
Cada aproximação, cada tentativa de porto seguro, mais não vale que umas penas chamuscadas e um pouco de fuligem.
Resta o céu… somente esse enorme e solitário céu… ou a imolação no fogo.

sábado, dezembro 30, 2006

um conto de natal...

Um conto de Natal no dia 30. Está bem. Eu sei que está um pouco atrasado, mas os reis magos ainda estão mais e esses eram suposto serem homens sábios, logo sem desculpa para se perderem nem atrasarem. Mas na realidade o Natal é quando um homem quiser. E eu quero que seja hoje, como o podia ser há vinte e sete anos atrás.
O Natal é quando um Homem quiser, principalmente aquela parte de menino que temos dentro de nós. Sim porque ainda tenho uma parte de menino, que gosto de a ter bem presente, principalmente nestes dias.

Este, aliás, é um conto de Natal que fala de uma menina. Uma menina que cresceu, ou quis crescer depressa demais.
Estranhamente os miúdos, nunca dizem que são miúdos. Dizem sempre que já são crescidos. É uma pressa tão grande de crescer, que às vezes até parecem irromperem pelas suas roupas. Querem sempre ser crescidos, e só assim o deixa de ser quando efectivamente são crescidos. Mas aí é já mais difícil voltar para trás.

Mas esta menina, quis crescer como todas as outras e quis crescer depressa. Não só, já há muito que sabia que não havia Pai Natal, como este ano não queria que lhe deixassem a tradicional prenda no sapatinho: uma boneca.
Os pais rapidamente lhe acederam ao pedido, já que o dinheiro nunca era muito e assim, podiam utilizar o que estava guardado para a boneca em roupas e material escolar.
A nossa menina estava assim decidida a passar o primeiro Natal à adulta, e lá foi alegremente com os seus pais, às lojinhas da sua cidade, comprar as suas roupas e os livros para a escola.
Já no regresso a casa, passaram pela loja dos brinquedos. A nossa menina, que naturalmente ainda era uma menina, não resistiu a olhar para a montra, ainda que disfarçadamente se tenha deixado ficar para trás para os seu pais não se aperceberem. Mas assim que pousou os olhos na montra todas as suas atenções foram para uma boneca por qual imediatamente se apaixonou. E de tal forma ficou encantada por ela, que só se apercebeu que os seus pais chamavam por ela, quando lhe tocaram no ombro. Ainda lhe perguntaram se queria a boneca, mas ela, sabendo que o dinheiro que era suposto ser para a boneca já fora gasto, prontamente recusou, querendo manter a postura de menina crescida.
Nessa noite, ao deitar, a nossa menina não conseguia tirar a boneca da sua cabeça. Ainda lhe ocorreu pedir, baixinho, a boneca ao Pai Natal, mas entre umas pequenas lágrimas que continha, remoía e afirmava para si mesmo que aquela personagem roliça, de barbas brancas e roupa vermelha, só existia mesmo nas camionetas dos refrigerantes e nas cabecinhas tontas das crianças. E ela, naturalmente, já era crescida.
E lá se foram passando os dias até à véspera de Natal, se bem que as noites fossem mais difíceis para a nossa menina, que se esforçava por não se lembrar da boneca. Tolices de menina crescida.
Lá chegou a noite de consoada, e como a menina já era crescida, lá ficou acordada até à meia-noite, como o resto dos adultos, para a troca de presentes, ao invés de ir para a cama e ir buscar a sua prenda ao sapatinho no dia seguinte.
Ela até achou uma seca a troca de presentes. Faltava-lhe a magia a que estava habituada, aquele encantamento. Lá recebeu uma camisola e umas calças e ainda um bonito livro de capa colorida com contos lá dentro.
Mas eis que para o final, lá ficou um singelo embrulho, em papel simples e baço, apenas com o nome da nossa menina, sem dizer de quem era. Os pais mostravam-se também surpreendidos. A menina correu para o embrulho e de uma avidez só, desfez o embrulho e eis que lá estava o que a sua cabecinha desconfiava e o coração ansiava: a boneca de sua afeição, a boneca da loja.
A menina não ficou muito convencida da inocência dos pais nesta surpresa, mas por outro lado também ficou na dúvida: será que o Pai Natal existiria mesmo?
De que qualquer forma, naquele dia estabeleceu consigo mesmo que seria crescida trezentos e sessenta e quatro dias por ano e mais um nos anos bissextos, mas naquele dia seria sempre criança, e lá no fundo do seu coração o Pai Natal existiria sempre.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

encantamento

Ele:

9 Arrebataste-me o coração, minha irmã e minha noiva,
arrebataste-me o coração com um só de teus olhares,
com uma só jóia de teu colar.

10 Como são ternos teus carinhos,
minha irmã e minha noiva!
Tuas carícias são mais deliciosas que o vinho;
teus perfumes, mais aromáticos
que todos os bálsamos.

11 Teus lábios, minha noiva, destilam néctar;
em tua língua há mel e leite.
Tuas vestes têm a fragrância do Líbano.

Cant. 4, 9-11

quarta-feira, dezembro 27, 2006

espelho


Cá em casa há um espelho. Nem sempre gosto de ver o seu relexo. Há dias em que a reprodução devia ser interdita.


La Reproduction interdite, A Reprodução Interdita (Retrato de Edward James, 1937, Rene Magritte
Óleo sobre tela, 79x65,5 cm
Roterdão, Museum Boymans-van Beuningen

terça-feira, dezembro 26, 2006

boxe


























Há algo de metálico no sabor do sangue na boca. Há algo de sangue no sabor metálico na boca. Há algo como um "uppercut" mental, que nos deixa desorientados... que nos deixa de sabor metálico na boca. Há algo de sangue nestas pancadas. Há algo de boxe...

segunda-feira, dezembro 25, 2006

poema de natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

texto de Vinicius de Moraes - edição de autor, RJ, 1960
imagem (A Natividade 1501/6,
Museu Grão Vasco, Viseu) de Vasco Fernandes (Grão Vasco)

sábado, dezembro 23, 2006

roque


O roque é um movimento especial concedido ao rei. Essa jogada é um movimento combinado entre o rei e a torre. Para efetua-lo, devem estar o rei a e torre na primeira fila, em suas casas iniciais, e não devem haver peças entre elas. Também é necessário que não se tenha movido o rei e a torre anteriormente. O movimento consiste em avançar o rei duas casas em direção a torre que se vai rocar e colocar a torre ao lado do rei, saltando sobre ele.Todos os movimentos se fazem em uma única jogada.

sábado, dezembro 09, 2006

voador

voador s. m.,
acrobata que salta de um trapézio para outro, mais ou menos distante



Já não faço o número do trapézio voador…

Quando estamos no trapézio voador, ganhamos asas. Perdemos o peso, as amarras à terra. Lá em baixo, distante, fica o mundo, cá em cima voamos… baixinho, e por breves momentos, mas voamos. Todo o voo é curto, mas quando suspensos no ar, o tempo parece suspender-se também, e lá em baixo, e cá em cima, e em todo o redor, tudo fica imóvel.
Quando nos atiramos no vazio do espaço, a confiança que depositamos no outro é cega. Acreditamos sempre. Só podemos acreditar, senão não nos atirámos, senão não voamos, senão… não há número do trapézio voador.
Quando agarramos as mãos do outro, somos os donos do mundo, somos senhores daquela alma que se nos entrega, que nos estende a mão, de quem sentimos a pele, o suor, a palpitação.
Quando pelo contrário, é a mão do outro que nos agarra, sentimos medo mas também confiança. Sentimos que todo o mundo se condensa ali, naquele contacto, ténue e firme, breve e eterno. Sabemos que aquela mão que nos agarra é tudo para nós, como no início, e como no fim.
Quando sentimos a as mãos a escorregar…

Passei três meses no hospital dos ossos quebrados. O chão realmente é duro, ainda que não o pareça lá de cima. E o corpo estilhaça quando em contacto com a terra.
A minha família, os meus amigos preocuparam-se imenso comigo, não sabiam se eu recuperava, ainda que os médicos os assegurassem do contrário, temiam sempre pela minha saúde, física e mental.
Agora já saí, já curei as feridas do corpo, mas não as da alma. Por agora apenas vejo os outros a voar baixinho. Tenho medo.
Agora já não faço o número do trapézio voador… por enquanto.

talvez

Talvez, Adverbio, com origem no latino "talivice", exprime possibilidade de dúvida, quiçá porventura mesmo.


Talvez, não é carne, não é peixe, não é terra, não é mar, não é bicho, não é gente, não é sim, não é não.

Talvez, é um pouco de tudo e não chega a ser nada.

Talvez, eu um dia descubra o que é talvez, ou talvez mesmo até vos diga.

Talvez, é um pouco de mim… ou talvez, seja eu mesmo um pouco talvez.

floricultura


Deixem ver se percebi…

Pode uma flor sobreviver depois de ter sido colhida?

Claro que não! Por isso mesmo, a partir desse exacto momento em que a colhemos, devemos, temos a obrigação para expiar tal acto, de desfrutar totalmente de todo o prazer que ela nos dá.


E manter-se-á a flor se não a colhermos?

Por ventura talvez. Não sabemos. Sabemos que tudo que é vivo perece, tudo o que é natural um dia fina. Assim o será com a flor, já que a vida de uma flor é naturalmente curta.
Não saberemos se cumprirá o seu desígnio, mas sabemos que aquela flor que não colhemos, ficará ali sempre no mesmo sítio, imóvel, sempre perto, mas sempre longe.

Deixem ver se percebi isto… Se calhar ainda não. Se calhar ainda não faz muito sentido.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

história antiga


Era uma vez, lá na Judeia, um rei. Feio bicho, de resto: Uma cara de burro sem cabresto E duas grandes tranças. A gente olhava, reparava, e via Que naquela figura não havia Olhos de quem gosta de crianças. E, na verdade, assim acontecia. Porque um dia, O malvado, Só por ter o poder de quem é rei Por não ter coração, Sem mais nem menos, Mandou matar quantos eram pequenos Nas cidades e aldeias da Nação. Mas,Por acaso ou milagre, aconteceu Que, num burrinho pela areia fora, Fugiu Daquelas mãos de sangue um pequenito Que o vivo sol da vida acarinhou; E bastou Esse palmo de sonho Para encher este mundo de alegria; Para crescer, ser Deus; E meter no inferno o tal das tranças, Só porque ele não gostava de crianças.

Coimbra, 12 de Outubro de 1937

Miguel Torga Diário I (1941)